jul 15 2019

O que o futuro reserva para a produção de bovinos na Austrália?


O que o futuro reserva para a produção de bovinos na Austrália? Tal indagação faz parte de um extenso e detalhado artigo sobre o futuro da pecuária no país da Oceania, assinado por especialistas australianos e publicado pelo portal local Beef Central. Segue aqui uma adaptação do conteúdo do texto contendo os temas mais relevantes.

Os seres humanos co-evoluíram com o gado durante milênios desde que se iniciou a domesticação de ovelhas selvagens, cabras e bovinos, há cerca de 10.000 a 13.000 anos. Avançando alguns milhares de anos, a pecuária passou por uma transformação e crescimento significativos.

Atualmente, os animais criados na Austrália geram mais de US$ 30 bilhões por ano, pouco menos da metade do valor total da produção agrícola. Mas o que o futuro reserva para o setor? A demanda global por carne, laticínios e ovos até 2050 está projetada para crescer 50%-70% de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação).

A demanda será impulsionada pelo crescimento populacional e pela crescente urbanização do consumidor nos países em desenvolvimento. Isso parece uma grande oportunidade para as indústrias pecuárias e, portanto, uma boa razão para estar otimista em relação ao futuro. No entanto, a capacidade do setor pecuário de encontrar, de forma rápida e efetiva, o equilíbrio entre o aumento da produtividade e a sustentabilidade acabará determinando o seu futuro.

Existem desafios profundos enfrentados pela atividade pecuária. Embora haja consenso claro entre as organizações alimentares e de saúde de que o consumo moderado de alimentos derivados de animais é desejável, há pontos de discórdia no debate sobre o assunto, como a ligação entre consumo de carne e resultados ruins à saúde humana.

Além disso, cerca de 25% da população mundial está com sobrepeso ou obesa e, paradoxalmente, 39% estão desnutridos ou passam fome. Claramente, existem forças compensatórias que influenciarão a demanda futura por carne, laticínios e ovos em resposta a esses desafios globais relacionados ao problema da desnutrição.

A escalada de preocupações ambientais e éticas em relação à produção pecuária exige uma maior ação do setor para manter a confiança da sociedade e do consumidor.

Os holofotes sobre o impacto da pecuária na saúde ambiental se intensificaram. Os críticos focam em questões como a utilização e degradação dos recursos terrestres e hídricos e cobram redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE).

Uma das questões críticas é a competição pela produção de ração animal ou alimentos para humanos em terras aráveis. Com a intensificação dos sistemas de criação de bovinos, houve um aumento na quantidade de grãos direcionados à atividade pecuária. No entanto, contrariamente à percepção popular, uma análise global recente revelou que apenas 14% do total de alimentos fornecidos à pecuária consistem em produtos que podem ser consumidos por seres humanos.

Geralmente, o debate sobre alimentos para animais leva em conta uma perspectiva de tudo ou nada, ou seja, ou a terra é usada para cultivar grãos ao gado ou para as pessoas. No entanto, pelo menos para ruminantes, é possível produzir, na mesma parcela de terra, culturas de dupla finalidade.

Estrategicamente, os animais pastejam na cultura plantada (por exemplo, o trigo) antes de serem removidos do pasto para permitir que a planta se recupere antes da colheita. Ensaios extensivos em fazendas mostraram que, embora possa haver uma leve queda no rendimento de grãos, as margens brutas são significativamente mais altas (pelo menos US$ 100/ ha) em relação às propriedades que produzem apenas grãos.

Além disso, as taxas de crescimento dos animais são mais positivas e, consequentemente, menos metano é produzido. Há também benefícios adicionais à saúde e ao bem-estar animal (redução das cargas parasitárias). O aumento da utilização de subprodutos alimentares também oferece oportunidades para reduzir o uso de terra arável para produzir ração animal.

Como já foi mencionado, a grande maioria do que os animais consomem não é comestível por humanos e essa constatação serve especificamente aos ruminantes que, em virtude do seu sistema digestivo único, têm a capacidade de converter biomassa vegetal em carne, leite e fibra. A proporção de terras ocupadas por animais de pasto na Austrália é bastante grande, representando 54% do total de terras do país. Será importante que a tendência atual de redução do desmatamento continue.

Na Austrália, as emissões de GEE do setor de carne vermelha (bovinos e ovinos) representam 9% de todas as emissões nacionais de gases de efeito estufa. Enquanto as emissões setoriais de GEE diminuíram 35% entre 2005 e 2015, em grande parte devido à redução do desmatamento, a mitigação das emissões de metano entérico pelos ruminantes continua sendo um grande desafio.

É importante ressaltar que existem soluções nutricionais (incluindo novos suplementos) e genéticas disponíveis aos produtores. Por exemplo, algumas leguminosas tropicais atuais têm um efeito anti-metanogênico quando fornecidas ao gado. Geneticamente, é possível identificar e selecionar animais que sejam mais eficientes metabolicamente na conversão de alimentos em músculo, leite ou fibras, produzindo, assim, menos metano.

No gado leiteiro, por exemplo, houve uma redução no número total de vacas na última década na Austrália, mas a produção de leite aumentou através de ganhos genéticos em eficiência e melhor manejo animal.

A mensagem para levar para casa é que existem soluções disponíveis e emergentes e que uma estratégia integrada (em vez do uso de uma única tecnologia) provavelmente produzirá os melhores resultados em nível nacional, dada a diversidade dos sistemas de produção.

Diante disso e considerando estratégias para aumentar o sequestro de carbono, há boas razões para estarmos cautelosamente otimistas em relação à meta do setor de carnes vermelhas de alcançar a neutralidade de carbono nas fazendas até 2030.

*Tradução e adaptação: Denis Cardoso/Portal DBO, de artigo publicado no portal da Beef Central, assinado pelos australianos Drewe Ferguson e Ian Colditz, da Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation (CSIRO).

Portal DBO