nov 11 2018

"Futuro governo não pode fechar portas para o agronegócio"


Alexandre Mendonça de Barros lembra que no início dos anos 1990, quando era professor da USP, um vice-ministro de Agricultura da China visitou a universidade e foi muito claro quanto à postura de Pequim em relação à possibilidade de o país asiático se tornar um grande importador de produtos agropecuários: isso jamais aconteceria.

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Naquele momento, a China não só tinha paranoia em relação à sua segurança alimentar como era exportadora líquida de alimentos, com superávit anual da ordem de US$ 2 bilhões. Mas sua gigantesca população continuou a crescer, a ganhar mais e a consumir produtos de maior valor agregado, o que obrigou a uma mudança de estratégia que, entre outros efeitos - o déficit comercial chinês nessa frente foi de US$ 80 bilhões em 2017 -, passou a beneficiar o Brasil, sobretudo a partir de meados da década passada.

Mendonça de Barros, hoje sócio-diretor da consultoria MB Agro, professor da Fundação Dom Cabral e um dos maiores especialistas em agronegócios do país, conta a história como um alerta: para um país tão dependente desse setor como o Brasil, é um erro tão grave entrar em conflito com parceiros como a China, entre outros, quanto vilipendiar a abertura de novos mercados.

Tanto quanto as tecnologias desenvolvidas pela Embrapa, afirma, a China foi fundamental para o desenvolvimento recente do Cerrado. Afinal, a forte demanda chinesa foi decisiva para catapultar a produção brasileira de soja - foram quase 120 milhões de toneladas na safra 2017/18, quatro vezes mais que no ciclo 2004/05 -, e esse avanço foi puxado pelas áreas do Centro-Oeste localizadas no bioma.

A partir desse forte crescimento, a soja se tornou o carro-chefe do agronegócio brasileiro tanto em valor bruto da produção, "da porteira para dentro", quanto nas exportações. De acordo com o Ministério da Agricultura, o VBP do grão deverá se aproximar de R$ 145 bilhões em 2018, enquanto a receita dos embarques está estimada em quase US$ 35 bilhões pelas indústrias do segmento (incluindo grão, farelo e óleo).

Diante desses números - e do fato de a China também ser grande importadora de carnes e ter potencial para ampliar as compras de um sem-número de produtos -, Mendonça de Barros reforça que é um grave equívoco do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) cogitar um endurecimento das relações com a China por causa da intenção daquele país de ampliar comércio e aportes no Brasil e, de alguma forma, ameaçar a soberania nacional.

Como o Brasil não tem o poder de barganha dos Estados Unidos nem os recursos de Washington para subsidiar agricultores prejudicados pelas rusgas comerciais provocadas pelo governo de Donald Trump, diz o agroeconomista, "é um absurdo imaginar entrar em conflito com os chineses".
Assim, ele recebeu com alívio a indicação de que sua preocupação é compartilhada pela deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS), escolhida por Bolsonaro para ser a ministra da Agricultura de seu governo. Mas lembra que, se a embaixada da China no Brasil também encarou com bons olhos a posição da futura ministra, outras tantas esperam algum sinal positivo após declarações belicosas do presidente eleito.

"Os países árabes, por exemplo, já absorvem mais de 35% das exportações brasileiras de carnes bovina e de frango, e uma mudança da sede da embaixada do Brasil em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém [outra ameaça de Jair Bolsonaro] põe em risco essas vendas. Não podemos fechar portas para o agronegócio, que responde por 23% do nosso PIB e é o superávit da balança comercial, com exportações que superam US$ 100 bilhões", afirma. "No comércio exterior, não pode ter bola perdida".

Ao mesmo tempo em que é melhor não bater de frente com parceiros fundamentais para o setor e para o país, diz Mendonça de Barros, o Brasil precisa ficar atento para aproveitar chances derivadas de cotoveladas entre outros parceiros. "Veja o México. Em consequência dos problemas que enfrentou com os EUA, abriu espaço para ampliar as importações de grãos e carne vermelha de outros países. Mais uma chance para o Brasil, que tem que estar presente em todos os mercados", acrescenta.

Para Alexandre Mendonça de Barros, o Brasil fez a lição de casa para se tornar o grande exportador de alimentos que é inclusive do ponto de vista ambiental, o que torna extremamente temerárias tanto uma eventual saída do país do Acordo de Paris (compromisso internacional para reduzir a emissão de gases de efeito estufa) quanto uma fusão dos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente.

São duas bandeiras que o futuro governo Bolsonaro aparentemente não vai mais perseguir, mas que já geraram desconfianças no front internacional. "Temos o plantio direto, fizemos o Código Florestal e temos uma matriz energética que pode ser considerada limpa. Temos competência tecnológica e empresários rurais competentes. O mundo já sabe disso e não podemos colocar essa percepção em risco".

Mendonça de Barros aprova as negociações comerciais bilaterais propostas pelo presidente eleito, mas ressalva que não é por isso que as negociações em bloco devam ser abandonadas. "A União Europeia, por exemplo, é um mercado tradicional do agronegócio brasileiro e tem potencial para ampliar as compras de produtos de valor agregado. E a Argentina é uma importante compradora de veículos e vendedora de trigo. Nem todos os interesses com esses parceiros estão alinhados, mas é preciso negociar e cultivar essas relações".

Fonte: Fernando Lopes - Valor