nov 2 2018

Agropecuária e meio ambiente: dois tesouros


Agropecuária e meio ambiente têm tudo a ver: são dois tesouros fundamentais em qualquer país. Mais ainda no Brasil, com tão vasto território, em grande parte ocupado por matas naturais, como a Amazônia, e com áreas agrícolas e de pastagens que o tornam autêntico celeiro mundial dos mais variados alimentos. Onde hoje há campos produtivos da agropecuária, havia florestas e cerrados. Restam outras florestas, a serem preservadas, em nome do futuro da humanidade. E esse futuro também está ligado à produção de alimentos, em áreas já suficientes. Portanto, agropecuária e meio ambiente são irmãos.

Não simples irmãos: são irmãos siameses. Como tal, poderiam mesmo ser agrupados num mesmo ministério, como aventou nesta semana o presidente eleito Jair Bolsonaro? Trata-se de uma decisão polêmica e que deveria merecer um debate mais amplo, ouvindo-se as partes envolvidas. Um bom tema para esta crônica.

Para começar minha análise, abro o jogo: Jair Bolsonaro não estava entre os meus candidatos preferidos, naquela lista dos 13 políticos que entraram na luta para conquistar os votos dos brasileiros no primeiro turno. Mas, uma vez que sou um democrata, que vota há 56 anos e que jamais faltou numa eleição e nunca optou por voto em branco ou nulo, conforme expliquei em minha crônica anterior, explico: a partir do momento em que, em 28 de outubro, as apurações apontaram para a vitória de Jair Bolsonaro, do PSL, sobre Fernando Haddad, do PT, por uma vantagem de mais de 10 milhões de votos no segundo turno, o vencedor passa a ser o presidente de todos os brasileiros.

Sim, Bolsonaro, com todos os seus defeitos autênticos e com todos os que lhe são atribuídos por adversários, tem de ser respeitado como o novo líder, alguém credenciado pela democracia para tentar fazer com que o Brasil, afinal, supere a sua prolongada crise política, econômica e moral. O choro dos derrotados é livre. A sabotagem e o vandalismo, não.

Isto posto, nada impede os jornalistas independentes e éticos de exercer o direito de comentar os rumos para a formação do quadro de ministros de Bolsonaro, o governo a ser colocado em prática em 1º de janeiro. No entender deste autor de sete livros, entre os quais Glória, Queda, Futuro – sobre a história da Odebrecht e as parcerias com políticos –, não é interessante para o país deslocar o juiz Sergio Moro para ministro da Justiça em 2019 ou para membro do Supremo Tribunal Federal (STF) ao ser aberta uma vaga em 2020.

A Operação Lava Jato, que tornou Moro famoso e que é focalizada em meu livro, tem sido decisiva para acabar com quadrilhas que assaltaram os cofres públicos. Tais ações contribuíram para que houvesse o impeachment de 2016 e um governo de transição até 31 de dezembro de 2018. Não se pode negar, também, que essas ações influíram na ideia dos cidadãos de que algo era preciso ser feito nas eleições para se descobrir novos nomes e banir o estilo corrupto. Em grande parte, a vitória de Bolsonaro se deve a esse cenário. Levando-se em conta que o combate à corrupção não deve cessar, o melhor lugar para Moro será mesmo em Curitiba, no comando da Lava Jato, e não num gabinete na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

Quanto à fusão dos Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente, tenho a esperança de que Jair Bolsonaro pense melhor e mantenha a autonomia das duas pastas. Bolsonaro tem condenado a excessiva politização de movimentos de defesa do meio ambiente, politização conduzida também ao núcleo central de antigos governos. Mas deve ser levado em conta que, enquanto maus ecologistas abusam do estilo xiita e tentam prejudicar o agronegócio, também existe o risco de maus agricultores desmatarem ainda mais os nossos tesouros verdes, em especial a Amazônia. É possível, sim, produzir bastante gado, café e grãos nas áreas atuais.

Existe um Código Florestal, existem leis e normas, que estabelecem exigências para o licenciamento de obras, limitando-se o desmatamento. É possível mexer nessa legislação, porém, com a participação do Congresso Nacional, agora também renovado. O fato de a agropecuária e o meio ambiente serem irmãos siameses não significa que, na prática, devem ficar juntinhos, no mesmo prédio de Brasília, sob uma só cabeça de comando. Este cronista é a favor de cirurgia de separação desses gêmeos nos planos administrativo e político. Juntos e dialogando, sempre tendo na liderança o presidente da República, também mediador, pelos interesses do Brasil como um todo. Questão de bom-senso.

Fonte: Luiz Carlos Ramos - Carnetec