jun 29 2018

Revisitando a doença da ‘rês gorda’


Sempre fui um admirador da revista DBO. Depois de emitir muitas opiniões para matérias jornalísticas, por mais de uma década, tomei coragem e escrevi meu primeiro artigo “solo” em 2006. Escolhi como tema o carbúnculo sintomático, conhecido como manqueira e que agora intitulei como “doença da rês gorda”. Isso afirmo, pois nunca vi, nem mesmo na literatura mundial, casos de manqueira em bovinos magros ou esqueléticos, apenas em bichos que dão gosto de ser apreciados de tão roliços que estão. Até hoje, muitos caboclos acham que a doença é fruto de “mau-olhado” ou “olho-gordo”. Isola!

Vamos ao bê-á-bá resumido da doença. É uma enfermidade infecciosa, mas não contagiosa, causada por toxinas da bactéria Clostridium chauvei, fazendo parte do triste clube das clostridioses. Esse micro-organismo é bastante encontrado no solo encharcado e em locais contaminados com o agente oriundo de um carbunculoso que foi aberto.

O bovino se contamina pela boca. Em seguida, a bactéria penetra pelos intestinos, indo se instalar na musculatura e no fígado. Aí o “bichinho” fica hibernado sem causar dano algum. Mas, como é traiçoeiro, fica de tocaia, esperando que a musculatura viçosa e abundante fique machucada, por exemplo por batidas, perfurações, vacinações, etc. Isso provocará menor circulação de sangue e morte do tecido local, que resultam em um quadro de anaerobiose (ausência total de oxigênio), fazendo com que as bactérias saiam do sono profundo, se multipliquem e produzam as toxinas mortais.

Essa multiplicação do agente é facilitada pela grande quantidade de açúcares que a musculatura exuberante tem, gerando, durante seu crescimento, muito gás e ácidos no local. As toxinas produzidas põem tudo a perder, pois causam morte muscular em grande escala, inchaço, hemorragia e produção de outras toxinas que multiplicam essa catástrofe e matam o coitadinho dentro de 12 a 36 horas.

Nosso termo popular, “manqueira”, na minha opinião, não é dos melhores, pois a morte é tão rápida que muitas vezes o animal não tem nem mesmo tempo de exibir os sintomas, que incluem dificuldade de andar e febre. Geralmente a rês é encontrada morta, com inchaço na musculatura atingida. Além do mais, não é uma boa ideia se denominar manqueira, pois esta pode ter mais de uma centena de diferentes causas, misturando as estações. Os pecuaristas britânicos denominaram a doença de blackleg (perna preta), pois quando se abre o local, o músculo está enegrecido e com sangue “pisado”. Por sinal, na suspeita do caso, nunca abra o animal, pois correrá o risco de ter uma enorme contaminação do ambiente com a bactéria e o surgimento de novos casos.

Bem, o que mudou de 2006 para cá? O número de inseminações artificiais praticamente dobrou nesses últimos 12 anos (7 milhões x 14 milhões de doses), com maior emprego de raças taurinas (em 2006, 1 milhão de doses de Angus ante 5 milhões em 2016) em cima das vacas Nelore, fazendo com que o peso médio de desmama aumentasse em até 20%. Aumentou também o emprego de creep feeding para bezerros mamões, que em 2006 era uma novidade e hoje é adotado em pelo menos 3% das fazendas. Essa técnica faz com que o peso ao desmame se torne, em média, 25 kg superior ao do aleitamento natural. Essas condições aumentam o risco do surgimento da doença em bezerros gordos cada vez mais novos.

Revisão de conceitos
A literatura, quase de forma unânime, afirma que a doença atinge bezerros a partir dos seis de meses de idade até animais de dois anos. Esses conceitos têm que ser completamente revistos, pois nos últimos dois anos constatei a morte de pelo menos três bezerros entre quatro e cinco meses de vida e no decorrer da carreira vi bois e touros erados sucumbirem ao mal com até cinco anos de vida. A doença também atinge bovinos confinados que no passado não foram devidamente vacinados. Atendi um par de bois confinados mortos por essa maldita bactéria.

Supõem-se que o surgimento ocorra a partir dos seis meses de idade, pois até então a bezerrada estaria protegida pela ingestão de anticorpos específicos recebidos via colostro. Dos três aos seis meses de idade esses anticorpos diminuem tremendamente, dando chance para o azar. O que fazer? O ponto chave é a mudança no esquema de vacinação. Bezerros gordos devem ser imunizados ainda durante a lactação, com uma primeira dose ao fim dos três meses de idade, com repetição da medida um mês depois. Essa vacinação de reforço confere muita resistência aos animais, aumentando em mais de 200% a quantidade de anticorpos produzidos. Em um dos casos que atendi, um bezerro jovem e gordo, o animal tinha sido imunizado uma única vez, indicando que a quantidade de anticorpos era insuficiente.

Bem, em confinamentos nos quais não sabemos a origem dos bovinos comprados é muito importante a vacinação na chegada dos animais no estabelecimento. Todos os vendedores dizem que seus animais sempre foram vacinados, o que nem sempre é verdade. Na dúvida, lembre-se do ditado “precaução e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”.

Fonte: Enrico Ortolani - Revista DBO